Havia
acabado de sair do shopping, estava no estacionamento. Subi, com pressa, uma
longa sequência de degraus até chegar ao guichê para pagar meu ticket. Paguei,
desci as escadas e entrei em meu carro. “Não, calma”. Havia esquecido algo.
Saí, então, do carro, carregando uma pasta, notas fiscais, o ticket do
estacionamento e o arranhador do meu gato. Sim, o arranhador do meu gato. Não,
não sei o motivo, mas sei que, quando um rapaz passou por mim, a bolinha do
arranhador fez aquele barulho de chocalho, e o rapaz me olhou de rabo-de-olho.
De repente, minha pressão começou a baixar. Eu fiquei lenta. As pessoas
conversando, os carros passando, tudo, tudo parecia lento. Quase fui atropelada
ao atravessar a rua. Minhas pernas caminhavam devagar, não obedeciam aos meus
comandos. Foi assim que caí desmaiada sobre o chão. Deitada no asfalto, em
posição fetal, acordei: era a mesma posição em que eu dormia esta tarde no
sofá. Sentia calafrios e dor de cabeça – e essa parte, para o meu azar, não era
sonho.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Quero um buldogue
André era um colega de faculdade de quem eu não tinha notícias há algum tempo. Dia desses, postou uma foto de um aparelho esquisito, uma espécie de fax, telefone e computador em uma geringonça só. Postou e disse que estava se despedindo, que não trabalharia mais com isso e que se mudaria para o Rio de Janeiro.
Pronto: bastou essa palavrinha composta, uma maravilha do mundo moderno, para que eu decidisse visitá-lo. E decisão é decisão, nem procurei contactá-lo porque não estaria disposta a mudar meus planos. Chegando próximo ao endereço, que sabe-se lá como descobri, fiz amizade com um morador de rua que bebia na calçada. Ele me indicou o caminho e logo cheguei a um edifício de quitinetes, que não só ficava de frente pro mar, como na própria areia.
Entrei pelo apartamento e nada do André, mas a geringonça ainda estava lá. Abri, então, a porta do banheiro e encontrei meu colega tomando banho, assustado com a minha presença. Apaguei a luz e saí. Quase instantaneamente, André saiu do banheiro, perguntando o que eu fazia ali e como tinha conseguido entrar em seu apartamento. Não dei grandes explicações, e lhe convidei para ir até um restaurante na praia, onde eu encontraria meu pai.
Estávamos no restaurante - eu, meu pai, e André - quando, de repente, subiram a estreita escada do estabelecimento um ex-sogro - acompanhado de uma mulher –, a filha dele, um ex-namorado com sua atual namorada e, por último a ex-sogra, por quem eu nutria muito carinho. Perguntei a minha ex-sogra se ela havia se divorciado. Respondeu-me que não: “nunca, está tudo bem”. Não dei muito assunto aos “ex” e me afastei para observar o mar. Apoiei-me sobre uma mureta e comecei a fotografar - não cansava de repetir a meu pai o quanto aquela vista era bonita e o apartamento do meu colega era bem localizado. Falava como se André nem estivesse ali. E acho que realmente já nem estava mais. O sol estava bem forte, mal conseguia enxergar o visor do celular. Ainda inundada pela beleza da paisagem, comecei a reparar que a maré estava subindo e se aproximando do restaurante. Alertei meu pai sobre isso; ele não ligou. A maré, no entanto, alcançou a mureta.“Vamos embora daqui!”, disse. Meu pai calmamente respondeu: “Melhor ficarmos aqui mesmo. Se não, você vai querer salvar o cachorro e vai se afogar”. Fiquei sem entender, até que vi um buldogue sobre a mureta. Ele tinha a pelagem malhada, com contrastes entre o branco e as cores vivas que desenhavam uma borboleta sobre seu dorso. "Uau!".
Pronto: bastou essa palavrinha composta, uma maravilha do mundo moderno, para que eu decidisse visitá-lo. E decisão é decisão, nem procurei contactá-lo porque não estaria disposta a mudar meus planos. Chegando próximo ao endereço, que sabe-se lá como descobri, fiz amizade com um morador de rua que bebia na calçada. Ele me indicou o caminho e logo cheguei a um edifício de quitinetes, que não só ficava de frente pro mar, como na própria areia.
Entrei pelo apartamento e nada do André, mas a geringonça ainda estava lá. Abri, então, a porta do banheiro e encontrei meu colega tomando banho, assustado com a minha presença. Apaguei a luz e saí. Quase instantaneamente, André saiu do banheiro, perguntando o que eu fazia ali e como tinha conseguido entrar em seu apartamento. Não dei grandes explicações, e lhe convidei para ir até um restaurante na praia, onde eu encontraria meu pai.
Estávamos no restaurante - eu, meu pai, e André - quando, de repente, subiram a estreita escada do estabelecimento um ex-sogro - acompanhado de uma mulher –, a filha dele, um ex-namorado com sua atual namorada e, por último a ex-sogra, por quem eu nutria muito carinho. Perguntei a minha ex-sogra se ela havia se divorciado. Respondeu-me que não: “nunca, está tudo bem”. Não dei muito assunto aos “ex” e me afastei para observar o mar. Apoiei-me sobre uma mureta e comecei a fotografar - não cansava de repetir a meu pai o quanto aquela vista era bonita e o apartamento do meu colega era bem localizado. Falava como se André nem estivesse ali. E acho que realmente já nem estava mais. O sol estava bem forte, mal conseguia enxergar o visor do celular. Ainda inundada pela beleza da paisagem, comecei a reparar que a maré estava subindo e se aproximando do restaurante. Alertei meu pai sobre isso; ele não ligou. A maré, no entanto, alcançou a mureta.“Vamos embora daqui!”, disse. Meu pai calmamente respondeu: “Melhor ficarmos aqui mesmo. Se não, você vai querer salvar o cachorro e vai se afogar”. Fiquei sem entender, até que vi um buldogue sobre a mureta. Ele tinha a pelagem malhada, com contrastes entre o branco e as cores vivas que desenhavam uma borboleta sobre seu dorso. "Uau!".
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