André era um colega de faculdade de quem eu não tinha notícias há algum tempo. Dia desses, postou uma foto de um aparelho esquisito, uma espécie de fax, telefone e computador em uma geringonça só. Postou e disse que estava se despedindo, que não trabalharia mais com isso e que se mudaria para o Rio de Janeiro.
Pronto: bastou essa palavrinha composta, uma maravilha do mundo moderno, para que eu decidisse visitá-lo. E decisão é decisão, nem procurei contactá-lo porque não estaria disposta a mudar meus planos. Chegando próximo ao endereço, que sabe-se lá como descobri, fiz amizade com um morador de rua que bebia na calçada. Ele me indicou o caminho e logo cheguei a um edifício de quitinetes, que não só ficava de frente pro mar, como na própria areia.
Entrei pelo apartamento e nada do André, mas a geringonça ainda estava lá. Abri, então, a porta do banheiro e encontrei meu colega tomando banho, assustado com a minha presença. Apaguei a luz e saí. Quase instantaneamente, André saiu do banheiro, perguntando o que eu fazia ali e como tinha conseguido entrar em seu apartamento. Não dei grandes explicações, e lhe convidei para ir até um restaurante na praia, onde eu encontraria meu pai.
Estávamos no restaurante - eu, meu pai, e André - quando, de repente, subiram a estreita escada do estabelecimento um ex-sogro - acompanhado de uma mulher –, a filha dele, um ex-namorado com sua atual namorada e, por último a ex-sogra, por quem eu nutria muito carinho. Perguntei a minha ex-sogra se ela havia se divorciado. Respondeu-me que não: “nunca, está tudo bem”.
Não dei muito assunto aos “ex” e me afastei para observar o mar. Apoiei-me sobre uma mureta e comecei a fotografar - não cansava de repetir a meu pai o quanto aquela vista era bonita e o apartamento do meu colega era bem localizado. Falava como se André nem estivesse ali. E acho que realmente já nem estava mais. O sol estava bem forte, mal conseguia enxergar o visor do celular. Ainda inundada pela beleza da paisagem, comecei a reparar que a maré estava subindo e se aproximando do restaurante. Alertei meu pai sobre isso; ele não ligou. A maré, no entanto, alcançou a mureta.“Vamos embora daqui!”, disse. Meu pai calmamente respondeu: “Melhor ficarmos aqui mesmo. Se não, você vai querer salvar o cachorro e vai se afogar”. Fiquei sem entender, até que vi um buldogue sobre a mureta. Ele tinha a pelagem malhada, com contrastes entre o branco e as cores vivas que desenhavam uma borboleta sobre seu dorso. "Uau!".
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